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Horto de Damasco

Neste blog, estaremos disponibilizando semanalmente artigos espíritas.

Causa e Efeito, você compreende?

ArtigosPosted by Horto de Damasco Sat, March 17, 2018 19:17:37
Por Flávio Mendonça (membro da equipe do Horto de Damasco)



Causa e Efeito, você compreende?


Joana era moça impetuosa e saliente. Ao ver Galvão pela primeira vez encantou-se com sua beleza. Insinuou-se para ele, e o conquistou com sua sedução irresistível. No entanto, era ligada ao vício e a sexolatria. Nesta convivência, induziu o Galvão ao vício do álcool e do tabagismo. Ambos foram aos limites dos seus vícios, até que certo dia, Galvão teve um infarto fulminante e desencarnou. Do outro lado da vida, Galvão, agora sem as vestes corporais, mas ainda viciado, procura saciar-se através de outros dependentes. Vai de bar em bar procurando um hospedeiro mais dedicado ao delito moral. Até que encontra um adequado as suas necessidades. Aproxima-se dele e quando vai investir com seu bico vampiresco, a sugar aquela energia desejada, eis que leva um bofete tremendo e cai a alguma distância da infeliz vítima. Olha atordoado sem compreender bem o acontecido. Percebe então um sujeito asqueroso, porém, forte, que o intimida com sua feição feroz, tipo um lobo selvagem. Impressionado arrisca:

__O que fiz?

__Ainda pergunta infame? Deu muito trabalho aliciar este daqui. Querendo, vá você mesmo cuidar de achar um que lhe sirva de presa. Esse me pertence e não admito!

Ainda estupefato pela situação, mas ainda ansioso para experimentar os fluídos antigos das suas viciações, percebe que precisa achar alguém que esteja propenso, mas que não tenha um “dono”.

Sai em busca tresloucada para achar alguém para servir de presa. Finalmente acha uma moça depressiva e vulnerável que está às portas da loucura. Essa era a vítima que precisava para esposar os “prazeres” da vida. Passou a ter sua própria refém para nutrir-se das suas viciações. No entanto, como o muito sempre é pouco, o nível da satisfação nunca é preenchido. Induziu-a ainda mais as desvirtuações morais, levando-a ao fundo do poço.

Eis que Vaninha, a sua vítima, desencarna e ele, agora só, não tem mais o seu instrumento particular de manipulação. Vive triste pelos cantos, sem ânimo para refazer todo o trabalho novamente.

Mas qual não é sua surpresa quando algum tempo após sente-se mal, meio que tonto, e desfalece no mundo espiritual. Passado precisamente 36 semanas, sente-se como que sugado por uma espécie de tubo, e sem nem esperar, uma forte luz encandeia sua visão. Chora então como um bebê assustado.

Galvão, agora Plácido, junto com Vaninha, agora Dorothéa, sua ex-parceira, renascem na família onde Joana, sua antiga comparsa, dessa vez na personagem de Walkiria, assume a missão redentora da maternidade.

Walkiria é viúva pobre com grandes dificuldades. Passou a vida lutando para sustentar seus filhos. Plácido, no presente, com 12 anos, é arrimo de família, sofre de grave doença respiratória e tem que lutar ardentemente para sustentar-se e as duas, sua mãe Walkiria e a sua irmã mais velha, a depressiva Dorothéa.

A ilustração serve para mostrar como a vida se mune de elementos para nos ensinar a servir com amor e justiça.

Lei que rege a todos nós, a Lei de Causa e Efeito foi soberana ao criar oportunidades de reparação e reajustes para os personagens citados. A atração, a afinidade existente nas consciências dos delinquentes, os fazem juntar-se numa nova chance para ajustarem-se entre si e com a lei de amor.

Para aqueles que não compreendem a Lei de Causa e efeito, por ter suas variáveis nas profundezas da consciência, o relato acima dá uma ideia da misericórdia do alto. É preciso entender que não há punição por parte do nosso Pai celestial, mas sim, que Ele, como nos fez compreender Jesus, atua através das Suas soberanas leis objetivando a educação, a disciplina e o progresso de todas as Suas criaturas. Entendamos, portanto, que o livre-arbítrio e a consciência, são conquistas do espírito imortal que conduz a criatura humana ao serviço de aperfeiçoamento moral e espiritual a fim de libertar, esse mesmo espírito, para os domínios superiores que aguarda a todo aquele que se empenha no seu adiantamento. Compreendamos a Lei de Causa e Efeito, as dores de hoje, como receituário necessário para nossa plenitude futura. Não há disciplina e luta, e consequentemente evolução, paralisado na zona de conforto. Vivamos em Deus meus amigos, para sermos felizes!



NÃO SAIBA A VOSSA MÃO ESQUERDA

ArtigosPosted by Horto de Damasco Sun, February 18, 2018 09:12:45

Por Flávio Mendonça (membro da equipe do Horto de Damasco)


NÃO SAIBA A VOSSA MÃO ESQUERDA

Essa máxima ensinada pelo Cristo não é novidade para nenhum de nós. Mas a questão que devemos refletir é se a compreendemos o suficiente para praticá-la. No geral ela está associada a nossa vaidade, a essa necessidade de ser reconhecido pelos atos que realizamos. Aliás, atos bons, que nos fazem destacados positivamente no meio social, pois, os negativos, geralmente, não os assumimos e até os escondemos, rara algumas poucas exceções.

A sugestão do Cristo é que deixemos esse personalismo devorador que nos faz mais vaidosos, orgulhos e egoístas. O exercício de realizar a tarefa no bem sem que os holofotes nos destaquem, é favorável as nossas necessidades espirituais, as novas conquistas do espírito, se não vejamos: quem dá sem interesse, ou seja, quem já conquistou a condição de não se destacar já tem no ato em si a recompensa da paz interior, ou seja, é feliz pela condição espiritual, e não por parecer virtuoso para o meio em que vive.

Complementando essa máxima, Jesus diz: “o galardão já foi dado àquele que se fez destacado”. Ou seja, a recompensa foi o elogio, a aparência de virtuoso, o reconhecimento público que permitirá novas ascensões sociais, etc. Já ao que faz por condição natural (não mostrando o ato para se destacar), esse já o faz por ter atingido um nível de consciência que o deixa feliz, por estar cumprindo sua responsabilidade.

Portanto, esse sábio ensinamento não se limita apenas a nos fazer “bonzinhos” perante Deus, mas sim conquistar uma etapa superior na escala de valores. Não tocar a trombeta quando fazemos o bem significa ter elevado nossa consciência, nossa condição espiritual. Pessoas espiritualizadas realizam tarefas por terem consciência de suas responsabilidades. São pessoas que doam porque tem em excesso. Já aqueles que fazem para chamar a atenção são pobres de valores espirituais, pois, mostram que ainda precisam receber ao invés de dar.

A ideia é relativamente simples: Sendo Deus provedor de tudo, Ele só doa. Aquele que doa sem pensar em recompensas, está muito mais perto de Deus, e portanto, numa condição espiritual e moral superior. Como o objetivo é o progresso e a plenitude, essa máxima sugere um constante exercício de melhoramento espiritual. Logo, é uma orientação, um roteiro para a felicidade de quem a prática. Sejamos gratos a Deus e a Jesus por nos permitir acessar esse roteiro de luz!



VIDA E SEUS DESAFIOS

ArtigosPosted by Horto de Damasco Tue, January 16, 2018 08:40:13
Por Iara Ristow (membro da equipe do Horto de Damasco)

VIDA E SEUS DESAFIOS

“Eu vim para que tenhais vida, e vida em abundância. ” – Jesus (João 10:10)

A proposta de Jesus decerto não se referia às aquisições materiais que proporcionam conforto e bem-estar, embora sejam benévolas quando não se encontram prioritárias na agenda cotidiana do Espírito Imortal, em trânsito pela Terra. Convidava o Mestre à Vida Maior, que se constitui das Verdades e Bens imperecíveis, os quais seguem com o Espírito, quando este se desvencilha do corpo físico.

No seu seio doutrinário, o Espiritismo demonstra a relevância do tema, no que se refere à preservação e valorização da Vida, em todos os seus aspectos.

O contexto histórico atual, de divergências e contradições, não obstante a diversidade criativa e as produções intelectuais, tem ocasionado aflições sem conta, no âmbito doméstico e social, à criatura humana, devido ao seu distanciamento do eu essência, Espírito Imortal e condutor do destino.

Este afastamento aprisiona-o às circunstâncias externas, gerando ansiedade e frustração, quando não se vê atendido, ou a viciações tóxicas que o degeneram integralmente. O materialismo, na ilusória filosofia que dissemina, induzindo ao ter, fictício, pois temporário, tem gerado transtornos diversos, culminando, por vezes, no autoextermínio, diante das condutas suicidas.

Neste quadro aflitivo, raramente, o indivíduo tem procurado as causas que o atordoam, preferindo permanecer na normose que acredita ser o modus vivendi correto. E em não realizando as reflexões que lhe oportunizariam alívio e recomeço, para experiências mais saudáveis, acaba descambando para as fugas psicológicas que passam a lhe caracterizar o comportamento.

Jesus, ao reafirmar o Salmos 82:6 em João (10:34) “Sois deuses “e “aquele que crê em mim também fará as obras que eu faço, e as fará maiores do que estas (João, 14:12)” (...), noticiava a condição divina da humanidade, com possibilidades várias e potencialidades ainda em gérmen, a serem desenvolvidas; e acrescente-se ainda: conforme a vontade e o empenho de cada um.

Muitos jazem, ainda fascinados pelas sensações físicas, no afã de atendê-las, distanciados de sua origem e das reais necessidades no cômputo de seu psiquismo, almejando preencher as lacunas existenciais com feitos e objetos, ocasionando, assim, mais dissabores.

Nesse descaminho, o ser humano tem enterrado ou distribuído erroneamente os seus talentos, quando não os utiliza para sua própria derrocada moral, esvaziando os reservatórios fluídicos do organismo físico, e despertando no mais além, na triste condição de suicida.

Por essa razão, as atividades realizadas visando a Defesa da Vida são essenciais, num contexto social descrente – e, na profissão de professora, percebo muito bem tal situação entre os adolescentes, que tem se automutilado de várias maneiras, por não encontrarem um sentido para a vida, que lhes dê esperança para uma continuidade. É certo que são multifatoriais os geradores de tal conduta destrutiva, e em especial, aqueles objetivos traçados e estimulados pela família (formação, profissão, casa, carro, ascensão social) não tem atendido os anseios da mocidade.

Allan Kardec, em O Evangelho Segundo o Espiritismo, no texto referente ao suicídio, credencia as filosofias materialistas como as grandes responsáveis pelos desatinos da Humanidade

“Mas, para aquele que não crê na eternidade e julga que nesta vida tudo se acabará, que está oprimido pelo desgosto e pelo infortúnio, só vê na morte a solução dos seus males. Por não esperar nada, acha natural e até mesmo muito lógico abreviar suas misérias pelo suicídio.

A incredulidade, a simples dúvida sobre o futuro, as ideias materialistas são, numa palavra, os maiores incentivadores ao suicídio: elas produzem a covardia moral. (ESE, cap. V, o Suicídio e a Loucura, itens 15 e 16).

Neste texto, Kardec propõe, objetivamente, as consequências àquele que apenas crê na existência presente, colocando nela todos os seus anseios, e cedo vê-se frustrado, pois as circunstâncias do cotidiano são desafiadoras, compelindo à superação, visando aprendizado. No entanto, diante da crença no nada, após a morte, não encontra razões para perseverar.

O Espiritismo faculta a compreensão do porvir, como o resultado da vivência presente; então, depende de cada um a construção de uma vida melhor, assim como as dificuldades do momento são elaborações de existências transatas.

A nobre mentora Joanna de Angelis menciona, em sua obra Conflitos Existenciais, “a culpa é algoz persistente e perigoso, que merece orientação psicológica urgente.”, referindo-se à problemática da culpa, gerando diversos transtornos na conduta humana, inclusive os autoflagelos. Oriunda de experiências de um passado recente ou remoto, sem as devidas resoluções, a culpa se manifesta traiçoeira, bloqueando as melhores disposições, e induzindo a comportamentos mórbidos.

Dessa maneira, o auto perdão é o antídoto seguro, juntamente com a prática do bem, nas ações renovadas e reparadoras, ás quais diluem as sombras dos erros cometidos, conduzindo à paz.

REFERÊNCIAS

KARDEC, Allan. O Evangelho Segundo o Espiritismo. Tradução de Guillon Ribeiro. 124. ed. Rio de Janeiro: FEB, 2005. Cap. 5, item 15 e 16, p. 108.

DIAS, Haroldo D. O Novo Testamento. 1 ed. Brasília. FEB. 2013.

FRANCO, Divaldo P. Conflitos Existenciais. Pelo Espírito Joanna de Ângelis. Salvador. Editora Leal.




Cirurgia Espiritual

ArtigosPosted by Horto de Damasco Wed, January 03, 2018 11:02:56
Por Flávio Mendonça (membro da equipe do Horto de Damasco)

Cirurgia Espiritual

Muitos buscam as cirurgias espirituais. É compreensível que nesse vale de dor, o ser busque alívio aos seus sofrimentos, que ele procure minimizar suas dores. Todavia, a pergunta que não podemos deixar de fazer como espíritas é: Estamos buscando a causa, ou apenas minimizando seus efeitos? Estamos na periferia da solução, buscando elementos paliativos, ou estamos buscando as soluções efetivamente?

Nada obstante a necessidade do alívio físico e até psicológico, devemos entender que acima de tudo, somos espíritos imortais, e o que não consertarmos nesta oportunidade reencarnatória, teremos que fazê-lo num futuro. Podemos portanto, admitir pela razão, que a verdadeira cirurgia espiritual se opera no campo da reforma interior, melhorando tanto quanto possível, os nossos aspectos imperfeitos de hoje, dentro claro, das possibilidades de cada candidato, conforme seus próprios méritos.

Jesus já nos alertava para as escolhas pela porta larga, a porta das facilidades, em detrimento das opções mais difíceis. É que a reforma íntima, escolha mais difícil (porta estreita) tão propagada no meio espírita, se refere aos grandes esforços que devemos desempenhar na busca dos nossos melhoramentos pessoais.

Ouvir palestras públicas, estudar os postulados espíritas, tomar passes, fazer tratamento espiritual, tomar água fluidificada, tudo isso é fonte de auxilio para a criatura carente de ajuste, porém, tem como finalidade auxiliar e não promover a reforma íntima. Não é em si a cura, mas sim parte do tratamento. A transformação exige certamente mais esforço, que todavia, advém da consciência da mudança interior. Para isso estes paliativos são fundamentais.

Somos seres com viciações e condicionamentos multimilenares e, que para alterar esses aspectos impostos pela evolução, muito é exigido na modificação dessa estrutura fixada pelo tempo. Entendamos, portanto, que o objetivo é realizar a verdadeira cirurgia espiritual, aquela em que o curador é o próprio ser, devotado às leis maiores, estabelecidas por Deus.

“Vais e não tornes a pecar” dizia Jesus após um benefício dado por mérito ao sofredor, todavia, muitos se fixam apenas na “cura” exterior, quando na realidade a única cura efetiva, aquela operada na alma, é a mudança de conduta, alinhada as leis maiores do Universo.

Portanto, meus caros amigos, todos sabemos o quanto é difícil nossa transformação, pois, requer quebra de paradigmas, desapego, enfrentamento do orgulho. Mas não nos iludamos, é no serviço no bem, na ação efetiva que poderemos lograr êxito, mesmo que este seja aparentemente insignificante. Não se constrói essa mudança interior de súbito, mas sim passo a passo. Sejamos conscientes de nossas necessidades para atender a um apelo de Allan Kardec: “que hoje eu seja melhor que ontem, e manhã melhor que hoje”. Sejamos firmes nesse propósito!



A Prática do Bem

ArtigosPosted by Horto de Damasco Mon, December 04, 2017 09:19:28

Por Flávio Mendonça (membro da equipe do Horto de Damasco)

A Prática do Bem

Porque àquele que tem, se dará, e terá em abundância; mas àquele que não tem, até aquilo que tem lhe será tirado. (Mateus 13 : 12)


Numa perspectiva comum e estreita, muitas pessoas ficam sem compreender o por que Jesus teria ensinado que o abastado ganharia mais, e que o pobre perderia até o pouco que tem. Seria sem dúvida uma grande injustiça se a lei se impusesse dessa forma. Todavia, nessa passagem, Jesus se referia ao entendimento das conquistas espirituais. Aqui o mestre nos trás algo bem mais elevado do que podemos imaginar numa visão ainda materialista. É que toda conquista do espírito é efetiva e passa a ser seu patrimônio. Se não vejamos um exemplo simples do nosso cotidiano: Imaginemos um atleta. Ele pratica todos os dias a sua atividade a fim de aprimorá-la. Pois bem, à medida que isso acontece ele realmente vai se superando até atingir seu objetivo, no caso, as conquistas esportivas. Podemos então estabelecer que o esforço que desempenha o faz cada vez mais aprimorado, enquanto se não o fizesse perderia até o que conquistou com os esforços passados. Os músculos atrofiariam, o condicionamento físico já não seria o mesmo, à disposição física e mental estagnariam. Enfim, fracassaria no seu desenvolvimento.

Podemos então compreender que, da mesma forma, a prática do bem que aprimora o espírito e os esforços nas conquistas espirituais que elevam a alma, são elementos perenes, que necessitam constante renovação, estímulo e perseverança. O homem não prescinde desses elementos para seu crescimento espiritual. Não pensemos que todas as conquistas já foram realizadas nesta condição terrena. Há muitos esforços a desempenhar para que possamos viver a plenitude desejada. Expressamos muitas vezes, inconscientemente, condicionamentos multimilenares, aos quais necessitamos de muitos esforços para transformar. Isso requer muita determinação, e acima de tudo compreensão das leis que regem o progresso humano.

No entanto, devemos lembrar que muitas conquistas foram realizadas no campo espiritual, haja vista as condições transatas em que já vivemos, onde predominava o primarismo da consciência, regido somente pelo instinto, em detrimento da razão conquistada pelo estágio atual.

Muitos já conquistaram condições sublimes da alma, mas nunca sem o trabalho que esposaram durante sua caminhada evolutiva. A prática do bem aprimora o homem para torna-lo bom. Abandonar a prática do bem é permitir-se estacionar no meio do caminho. Jesus nos ensina isso na máxima acima, no início do texto. Kardec estabelece o mesmo quando diz “Fora da Caridade não há salvação”. Reflitamos, amigos, quais serão nossas escolhas doravante!





Evangelizar-se, a Melhor Escolha!

ArtigosPosted by Horto de Damasco Wed, November 22, 2017 11:16:50

Por Flávio Mendonça (membro da equipe do Horto de Damasco)

Evangelizar-se, a Melhor Escolha!

E respondendo Jesus, disse-lhe: Marta, Marta, estás ansiosa e afadigada com muitas coisas, mas uma só é necessária; E Maria escolheu a boa parte, a qual não lhe será tirada. LC 10:41 e 42


Quantas vezes não repetimos a ação mental de Marta, ansiosos por realizações efêmeras da vida material? Poucas vezes fazemos o papel de Maria e nos devotamos ao aprendizado para a vida maior. Em geral, nossos parcos sentidos nos mostram a realidade transitória da matéria, como se essa fosse a última. Colocamos nossa mente no “automático” e seguimos a realizar coisas, a pensar em coisas pequenas, muitas vezes imaginando serem grandes. Nossas antenas mentais vivem direcionadas para as coisas menores, negligenciando o que verdadeiramente importa para nosso crescimento efetivo, o lado espiritual. Afinal, o que somos, esse corpo perecível que as células se renovam constantemente, ou o que o conduz? Somos afinal, corpo ou mente?

As motivações que ensejam nossos cinco sentidos nos levam a viver uma verdadeira ilusão, de sorte que, estamos quase sempre observando o lado pobre da existência. O banquete, a riqueza perene que alimenta a alma está geralmente do lado oposto. Isso ocorre porque nossa condição espiritual ainda trafega pelos mares dos condicionamentos inferiores. Mas, e o que fazer?

Jesus nos ensina, através do seu Evangelho, a olharmos o presente, a viver a realidade maior, considerando a vida espiritual, não só na erraticidade, mas em qualquer condição. Maria, como fala a passagem acima, fez a escolha correta quando dedicou sua atenção ao ouvir os ensinamentos sublimes do seu mestre.

Evangelizar-se é a conjugação correta! Muitas vezes olhamos o argueiro no olho alheio, esquecendo o travessão que temos que retirar dos nossos próprios olhos.

Estudar o Evangelho para aprender, e praticar a caridade e o bem para apreender, eis o que deve ser feito constantemente. Não se trata aqui de prática meramente religiosa, mas sim de condicionamento necessário para as modificações mentais que inexoravelmente teremos que realizar se desejamos viver satisfatoriamente. Evangelizar-se é cooperar com Jesus, cooperemos, pois!





A Palestina no tempo de Jesus

ArtigosPosted by Horto de Damasco Sat, November 11, 2017 10:51:35
Por Leonardo Machado (membro da equipe do Horto de Damasco)


A Palestina no tempo de Jesus

Para melhor se entender o Evangelho de Jesus é importante não negligenciar a geografia na qual os acontecimentos que ali são descritos se sucederam.


- Canaã –

Como se sabe, o Mestre nasceu no território conhecido como Palestina.

Este, na realidade, é o nome mais recente do local, dado pelos romanos, que literalmente significava “terra dos filisteus”, derivado do grego Philistia. Anteriormente, era chamado de Filístia pelos antigos habitantes. Os hebreus a chamavam de Canaã, que certamente significava “Terra da Púrpura”. Era a esperada Terra Prometida por Iavé.

Esta atualmente conhecida “Terra Santa”, ao lado de outros territórios, que abrangiam o Egito, a Arábia, a Síria, a Mesopotâmia, a Armênia, o Irã e a Ásia Menor, fazia parte do antigo Oriente Próximo, também chamado de Ásia Ocidental ou Ásia Anterior. Nesta região, surgiram as primeiras civilizações do mundo, muito embora apresentasse grandes desertos, estepes e montanhas. Concorriam para este florecimento populacional o fato de ser uma área que apresentava vales férteis de grandes rios, ao lado da localização estratégica - passagem obrigatória das rotas comerciais do local.

Estritamente falando, a Palestina é uma estreita faixa limitada ao norte pela antiga Fenícia, que corresponde hoje ao Líbano e a parte da Síria; ao sul pela Península do Sinai, região montanhosa e desértica do Egito; à leste pelo Deserto Arábico, que atualmente se estende da Síria e da Jordânia para outros países; e à oeste pelo Mar Mediterrâneo, um mar do Atlântico Oriental que banha diversos países.

Estendendo-se de norte a sul por cerca de duzentos e quarenta quilômetros e tendo aproximadamente vinte mil e seiscentos quilômetros quadrados, era atravessada pelo rio Jordão, palavra que significa “lugar onde se desce”. Sua nascente se situa nos montes Antilibano, na encosta do monte Hérmon. Daí, descendo, forma o lago Hulé, e depois, o Mar da Galiléia, também chamado de Lago Tiberíades e de Lago de Genesaré. Seguindo o seu curso, desemboca no Mar Morto. Tendo grande importância nas narrações bíblicas, atualmente, é a fronteira entre Israel, junto com a Cisjordânia, e a Jordânia.

Saliente-se que, no decorrer da história, como sói acontecer, os campos nos quais o Cristo nasceu tiveram suas fronteiras modificadas reiteradas vezes. Atualmente, por exemplo, certamente menor do que naquela época do Rabi, a Palestina está dividida em três porções. Uma foi transformada no Estado de Israel. As outras duas são a Faixa de Gaza e a Cisjordânia. E, infelizmente, ainda continua sendo palco de inúmeras guerras, apesar de ser chamada de santa.

- Na época de Jesus –

No tempo de Jesus, graças às conquisas realizadas pela dinastia asmoniana e por Herodes, Canaã tinha, praticamente, seus primitivos limites. Porém, estava dividida em várias regiões. Pode-se dizer que as principais eram a Samaria, a Judéia e a Galiléia, mas também outras menores existiam, como a Peréia – ou Paréia -, a Iduméia, a Ituréia, a Batanéia, a Traconites, a Abilene e a Gaulanites.

Ao norte da Palestina, e com uma população bastante miscigenada - tendo fenícios, sírios, árabes e gregos -, a Galiléia foi o palco da maior parte do tempo da vivência e das pregações do Mestre. Situada quase duzentos metros abaixo do mediterrânio e com um povo que em sua maioria não sabia ler ou escrever, era uma região agropastoril e de pescadores, graças às margens do rio Jordão, ao Mar Mediterrâneio e ao Lago Tiberíades. Este último era altamente venerado pelos judeus, já que ao seu redor a vegetação e a fertilidade eram abundantes. Ao longo do tempo, passou a ser a fonte de subsistência principal da região. Alguns chegaram a afirmar que, naquele tempo, havia cinco mil barcos pescando a uma só vez. Por isto mesmo, viu florescer, em seu derredor, inúmeras cidades, inclusive de importância nos Evangelhos, como Betsaida, à nordeste do Lago de Genesaré, e Cafarnaum, Magdala e Tiberíades, todas à oeste do mar.

Em Cafarnaum, cidade na qual Mateus parece ter vivido, existia uma sinagoga - fato que deveria indicar uma certa importância desta cidade -, na qual Jesus cura um paralítico e faz os primórdios de sua vida pública. No extremo norte, havia a Cesaréia de Filipe, uma reconstrução Herodeana da antiga Pânias em homenagem à Roma, o que causou grande desconforto entre os israelitas.

Mais abaixo, à sudoeste do Mar da Galiléia, ficava Nazaré, a cidade na qual Jesus passou mais tempo, em especial de sua juventude. Esta era uma cidade pequena, com um terreno largamente aberto e um frio rigoroso no inverno, muito embora tivesse um clima ameno em outras épocas. A oeste dela, estava a cidade de Caná, também um dos primeiros cenários de suas pregações. Também próximo, estava o monte Tabor, no qual ele se transfigura, na que, segundo Divaldo Franco, foi a primeira sessão mediúnica da história, com o aparecimento, também, de Elias e de Moisés.

A verdade é que em outras regiões, como em Jerusalém, as pessoas com desdém perguntavam – “Vem, porventura, o Cristo da Galiléia?” -, ou ainda – “Poderá sair coisa boa de Nazaré?”. Entretanto, apesar de um povo simples, segundo muitos, até hoje a hospitalidade e generosidade são marcas das pessoas do local.

Já ao Sul da Terra Prometida, em área montanhosa, a Judéia era o centro do poderio econômico. Em seus campos predominava a pecuária, com criação de camelos, de vacas e de ovelhas, e o cultivo da oliveira. Além disso, o artesanato e o comércio ganhavam destaque, inclusive de artigos de luxo, estes sobretudo na capital.

Possuia, igualmente, as principais cidades da cultura judia, bem como o poderio econômico. Jericó, mais ao norte, era uma das cidades mais antigas e de suas árvores se extraia bálsamo para perfumes. Betânia, logo abaixo, próxima do Monte das Oliveiras e de Jerusalém – João escreveu que ficava a uns 15 estádios desta -, foi visitada diversas vezes por Jesus. Isto porque lá estavam, corriqueiramente, Lázaro e suas irmãs, Marta e Maria. Era uma das poucas casas na qual o Mestre se hospedava.

A capital estava situada em Jerusalém, à oeste de Betânia. Lá estava o centro global da cultura hebraica. Situada a setessentos e sessenta metros acima do nível do mar Mediterrâneo, recebia cerca de cento e oitenta mil peregrinos em épocas de festividades. Naquela ocasião, Herodes já havia reerguido e ampliado o famoso templo, que, então, passou a ser conhecido com o seu nome, e era, sem dúvida, o centro de Israel. Aí, campeavam a soberba e o preconceito. Ao leste deste centro e depois do vale de Josafá, ou vale do rio Cédron, ficava o Monte das Oliveiras, uma cadeia de colinas com três picos, na qual o Cristo esteve algumas vezes pregando. Foi lá que ele previu a negação de Pedro. No sopé desta colina, estava um jardim chamado Getsêmani, no qual o Mestre orou antes da crucificação. Também, perto desta cidade, estava o Gólgota, planície na qual Jesus foi crucificado e, por ser um termo em aramaico, significa calvário, ou lugar da caveira, segundo alguns evangelistas.

Mais ao sul, estava Belém, o local das tradicões do antigo rei Davi. A Judéia também era atravessada pelo rio Jordão e pelo mar Morto, este ao leste de seus principais povoados e descendo até chegar a Iduméia.

Entre, porém, a Galiléia e a Judéia, apertada como uma ilhota, estava a Samaria que, naquele tempo, não desfrutava mais as glórias do passado. Ao contrário, sofria ainda a discriminação por parte dos outros judeus, sendo, pois, mais pobre. Isto ainda era reflexo da dominação feita pelos assírios, ao talante de Sargão II, na qual, dentre outras coisas, tivera suas mulheres violentadas pelos conquistadores. A partir de então, seus filhos passaram a ser vistos como mestiços e, portanto, impuros. Porque ficassem proibidos de entrar em contato com outros hebreus, mesmo de adorar Deus no templo de Jerusalém, os samaritanos, sob o comando de um sacerdote de Sião, construíram um santuário em cima do monte Garizim para rivalizar com o da Judéia. Este ficava no centro da Samaria.

Entre este monte e o Ebal, ou Hebal, contudo, estava, numa altitude de quase 600m, a cidade de Sicar, ou Siquém, que significava dorso, famosa pelo poço de Jacó, que talvez exista até hoje com o nome de Bir Iakub. Eles tinham costume de colocar em locais públicos nomes de seus antepassados. Aí, Jesus esteve por alguns dias, num diálogo notável com uma mulher. A esta altura, no entanto, a própria cidade da Samaria, que havia sido destruída na época dos macabeus, tinha sido reconstruída por Herodes, agora com o nome de Sebaste, ou Augusta em grego, igualmente em homenagem ao imperador romano. Esta ficava a noroeste de Sicar.

A região da Samaria, como estava entre as duas principais regiões da Palestina, era local de passagem dos viajantes. Na verdade, a estrada de Jerusalém, que ligava a Judéia à Galiléia, passava a mais ou menos meia hora de Siquém, no vale entre os dois montes supracitados. Era comum, entretanto, os judeus percorrerem um caminho mais longo, através de um grande desvio ao leste, passando pela Peréia e evitando, assim, o contato com os samaritanos. Segundo João, porém, o Mestre pela estrada passou tranquilamente.

Na realidade, esta terra foi fonte de inspiração para uma das mais belas parábolas do Evangelho, a do samaritano, quando é proclamada a excelência da caridade. Outrossim, desde cedo esta região recebeu a Boa Nova. Mesmo os apóstolos a visitaram depois da crucificação.

O meigo Rabi ainda passou por diversas regiões da Palestina, como a Peréia, depois da sua quarta estada em Jerusalém, de acordo com João, e a Decápole, em Gerasa, onde fez curas consagradas pelos apóstolos.

Como seja, porém, nestas paisagens, aqueles devem ter sido dias inesquecíveis.

Leonardo Machado (04 de janeiro de 2008)

BIBLIOGRAFIA

1. Mateus 2:1, 19, 22; 17-1-8; 8:28-34; 27: 33;

2. Lucas 1:5; 3: 1; 5:17-26; 9: 28-36; 8:26-39; 23: 33;

3. João 1: 46; 4: 1-6; 7:41; 10: 40-42; 11:18; 11:1-7; 19: 17;

4. Marcos 2: 1-12; 14:26-42; 15: 22;

5. A Bíblia Sagrada. Tradução de João Ferreira de Almeida. Edição Familiar : Difusão Cultural do Livro, p.7-8, 847-854, 889, 912, 913, 951.

6. AQUINHO, Rubim Santos Leão de. História das sociedades – das comunidades primitivas às sociedades medievais. 1.ed. 8.reimpressão. Rio de Janeiro, RJ : Editora ao Livro Técnico, 1993, p. 21, 87, 130-139.

7. BLAINEY, Geoffrey. Uma breve história do mundo. [versão brasileira da editora]. 2.ed. São Paulo, SP : Editora Fundamento Educacional, 2008, p.96-114.

8. FRANCO, Divaldo Pereira. Um enconto com Jesus. Compilado por Délcio Carlos Carvalho. 1.ed. Salvador, BA : LEAL Editora, 2007, caps. 2-17, 19-24.

9. FRANCO, Divaldo Pereira. Pelos caminhos de Jesus. Pelo espírito Amélia Rodrigues. 6.ed. Salvador, BA : LEAL Editora, 2002, p. 15-19.

10. FRANCO, Divaldo Pereira. Primícias do Reino. Pelo espírito Amélia Rodrigues. 11.ed. Salvador, BA : LEAL Editora, 2008, p.21-29, 109-110.

11. FRANCO, Divaldo Pereira. Há flores no caminho. Pelo espírito Amélia Rodrigues. 6.ed. Salvador, BA : LEAL Editora, 2002, p.17-22.

12. FRANCO, Divaldo Pereira. Sou Eu – a paixão de Cristo na visão Espírita. Organizado por Álvaro Chrispino. 1.ed. Salvador, BA : LEAL Editora, 2007, p.11-52, 235-243.

13. JAGUARIBE, Helio. Um estudo crítico da história – volume I. Tradução de Sergio Bath. 1.ed. São Paulo, SP : Paz e Terra, 2001, p.207-241, 641-643.

14. RENAN, Ernest. Vida de Jesus. Tradução de Eliana Maria de A. Martins. 1.ed. São Paulo, SP : Editora Martin Claret, 2004, caps. 1-4, 14, p.423-467.

15. VERMES, Geza. Quem é quem na época de Jesus. Tradução de Alexandre Martins. Revisão técnica de Marcos de Castro. 1.ed. Rio de Janeiro, RJ : Record, 2008, p. 9, 11-40, 61-62, 64-67, 73-76, 80-85, 94, 130-139, 153-164, 209-211, 233-237, 241-242, 269-271, 278.

16. Wikipédia, a enciclopédia livre. In: http://pt.wikipedia.org/wiki/Mar_Mediterr%C3%A2neo ; http://pt.wikipedia.org/wiki/Palestina ; http://pt.wikipedia.org/wiki/Deserto_ar%C3%A1bico ; http://pt.wikipedia.org/wiki/Pen%C3%ADnsula_do_Sinai ; http://pt.wikipedia.org/wiki/Rio_Jord%C3%A3o ; http://pt.wikipedia.org/wiki/Bet%C3%A2nia_(Israel) ; http://pt.wikipedia.org/wiki/Monte_das_Oliveiras ; http://pt.wikipedia.org/wiki/Gets%C3%AAmani ;



O Sublime Direito à Vida e a Desumanização do Humano

ArtigosPosted by Horto de Damasco Fri, November 03, 2017 12:48:47

Por Gustavo Machado (membro da equipe do Horto de Damasco)

O SUBLIME DIREITO À VIDA E A DESUMANIZAÇÃO DO HUMANO

Ao ler o livro “O menino do pijama listrado”, foi quase que inevitável não se fazer uma relação com a temática do abortamento. No trecho em que Bruno, um personagem infantil, indaga ao seu pai sobre a existência das pessoas de pijama, chamou-nos muita atenção. Eis a passagem: "Quem são todas aquelas pessoas do lado de fora? O pai inclinou a cabeça para a esquerda, parecendo um pouco confuso por causa da pergunta. São soldados, Bruno, disse ele. E secretários, empregados do gabinete. Você já os viu antes, é claro. Não estou falando deles, disse Bruno. Quero saber daquelas pessoas que eu vejo da minha janela. As que moram nas cabanas, lá longe. Estão todas com as mesmas roupas. Ah, aquelas pessoas, disse o pai, acenando com a cabeça e sorrindo levemente. Aquelas pessoas... Bem, na verdade, elas não são pessoas, Bruno. Bruno franziu o cenho. Não são?, perguntou ele, sem saber o que o pai queria dizer com aquilo. Bem, não são pessoas no sentido em que entendemos o termo, prosseguiu o pai. Mas você não deve se preocupar com elas agora. Elas não têm nada a ver com você. Não há nada em comum entre você e elas [1]."
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Refletindo, evidencia-se quão perigoso é a tese favorável ao abortamento, na medida em que se nega a condição de ser vivo, isto é, de humanidade ao feto, tratando-o como mero objeto, e como tal, não suscetível de direitos. Perigoso, porque a história da humanidade e, consequentemente, da luta pela afirmação dos Direitos Humanos, é permeada, de tempos em tempos, por negação de humanidade e/ou afirmação de sub-humanidade a determinadas pessoas, não os reconhecendo, pois, como titulares de direitos. Sem pretensão de fazer um resgate histórico, basta relembrar a situação dos indígenas e dos negros, cuja negativa da condição de ser humano legitimou, na perspectiva jurídica, uma série de atrocidades.

Sublinhe-se que esses pensamentos não são reflexos apenas dos séculos XV e XIX. Infelizmente, não. Essa mesma ideia, ou pelos menos a essência, também justificou a política alemã do governo de Adolph Hitler quando do holocausto (em meados do século XX), tal como reproduzida no citado livro, quando já estavam disseminadas, ainda que forma incipiente, as ideologias humanistas.

Nesse sentir, a única alternativa argumentativa que se reconhece como legitimadora do aborto é se partir do princípio da desumanização do humano, ou seja, retirar o caráter de humanidade do feto – arbitrariamente – diga-se de passagem – para, tornando-o uma coisa, não haver qualquer óbice para o abortamento. Contudo, o feto é um humano. Se não pertence ao reino animal, em qual classificação estaria tal ente enquadrado? No reino vegetal? No reino mineral? Por certo que não. Pertence, pois, ao reino animal, no caso, hominal, porquanto, tendo potencialidade humana, é, sim, um ser humano, tanto quanto e na exata medida do ser já nascido. Com efeito, parte da medicina, no caso os geneticistas e os embriologistas, já comprova que o feto, muito embora dependa do organismo materno para sobreviver, é ele autônomo em relação à mãe. Trata-se de uma vida absolutamente distinta da mãe, com constituição orgânica própria e com propriedades específicas e singulares que o torna único, com carga genética inconfundível. O feto é um ser humano, tal qual o é o ser já nascido. Não se tem diferença na natureza, mas apenas em estágio de desenvolvimento. Nesse sentido, tem-se William J. Larsen

(...) o zigoto representa um novo potencial genético, diferencia-se radicalmente das células do organismo materno, é único e não repetível. Um novo tipo de organização inicia a produção de um organismo multicelular, com identidade própria, capaz de comandar, sozinho, todo o processo de diferenciação até a formação completa do indivíduo [2].

Ora, sendo o feto um ser humano, o ordenamento jurídico brasileiro confere proteção jurídica ao nascituro. Nesse diapasão, o artigo 5º, caput, da Constituição Federal do Brasil, estabelece a inviolabilidade do direito à vida e o artigo 2º, do Código Civil, preconiza que o nascituro, desde a concepção, tem assegurado os seus respectivos direitos. E não é só. As Declarações Internacionais de Direitos Humanos também estão alinhadas nesse viés, em especial, a Convenção sobre os Direitos da Criança das Organizações das Nações Unidas e A Convenção Americana de Direitos Humanos, ambas ratificadas pelo Estado Brasileiro nos anos de 1990 e de 1992, respectivamente. Não por outra razão, o Ministro aposentado do Supremo Tribunal Federal Eros Grau, quando do artigo publicado na Revista Reformador, edição de setembro de 2011, asseverou que “o nascituro não é apenas protegido pela ordem jurídica, sua dignidade humana preexistindo ao fato do nascimento, mas é também titular de direitos adquiridos”.

Assim, qualquer pretensão de legitimar a conduta do abortamento é, absolutamente, inconstitucional, na medida em que o Estado Brasileiro, tendo vista o direito inviolável à vida, deve, de forma imperiosa, tutelar a vida, seja extrauterina, seja intrauterina. Reforçar a dignidade e vida do nascituro significa reforçar, do fim ao cabo, o princípio da dignidade humana para além e independentemente de qualquer preconceito de origem, raça, sexo, cor, idade e quaisquer outras formas de discriminação. Feitas essas considerações jurídicas, denota-se que, que neste ponto, o ordenamento jurídico brasileiro está em consonância com os princípios cristãos e espíritas. Nas questões 344, 358, 359 de O Livro dos Espíritos, tem-se que a união da alma ao corpo inicia-se na concepção, de modo que desde este momento já há uma individualidade espiritual designada a habitar o corpo do nascituro que está formando, daí porque cometerá crime sempre que se tirar a vida de uma criança antes do seu nascimento, ressalvando-se a situação da gestação que possa colocar em perigo a vida da mãe, na medida em que se está a salvar e preservar uma vida. Por isso, a Doutrina Espírita é a favor da vida. Sejamos contra o aborto, porquanto somos a favor da vida, mas não condenemos a pessoa, não somos contra a pessoa. Jesus, que é o nosso guia e modelo (questão 625 de O Livro dos Espíritos), nos ensinou que não devemos julgar ninguém. Se eventualmente, depararmo-nos com pessoas que tenham, por algum motivo, se envolvido com a prática do abortamento, lembremo-nos da passagem da mulher adúltera, para que possamos acolher, tal como o Nosso Mestre fazia, e esclarecer que a todo o momento podemos recomeçar... E, aqui, finalizamos esta breve reflexão, citando a letra e música “Recomeçar” de Leonardo Machado, médico e expositor espírita:

“Recomeçar, recomeçar

Ainda que se volte a chorar

Se a lágrima vem, sempre vem também

O sopro do vento que a ajuda a secar

Recomeça mesmo que a dor sempre teime a voltar

Recomeçar, recomeçar

Ainda que se volte a chorar

Só quando o cristal é lapidado

Torna-se uma joia de grande valor

E Bethoveen, no silêncio, ouviu a grande Ode,

Pois amanhã... sempre o sol beija o doce mar

Vai, pois, deixa a música cantar no silêncio das tuas lágrimas

Verás, depois, como é bom sorrir

Deixar o brilho dentro do olhar

Acredita na força do amor

Recomeçar, recomeçar”.

_______________________________

[1] BOYNE, John. O menino do pijama listrado. São Paulo: Companhia das Letras, 2007, p. 52

[2]Human Embriology, Churchill Living-stone Inc., NY, 1993.









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