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Horto de Damasco

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A Palestina no tempo de Jesus

ArtigosPosted by Horto de Damasco Sat, November 11, 2017 10:51:35
Por Leonardo Machado (membro da equipe do Horto de Damasco)


A Palestina no tempo de Jesus

Para melhor se entender o Evangelho de Jesus é importante não negligenciar a geografia na qual os acontecimentos que ali são descritos se sucederam.


- Canaã –

Como se sabe, o Mestre nasceu no território conhecido como Palestina.

Este, na realidade, é o nome mais recente do local, dado pelos romanos, que literalmente significava “terra dos filisteus”, derivado do grego Philistia. Anteriormente, era chamado de Filístia pelos antigos habitantes. Os hebreus a chamavam de Canaã, que certamente significava “Terra da Púrpura”. Era a esperada Terra Prometida por Iavé.

Esta atualmente conhecida “Terra Santa”, ao lado de outros territórios, que abrangiam o Egito, a Arábia, a Síria, a Mesopotâmia, a Armênia, o Irã e a Ásia Menor, fazia parte do antigo Oriente Próximo, também chamado de Ásia Ocidental ou Ásia Anterior. Nesta região, surgiram as primeiras civilizações do mundo, muito embora apresentasse grandes desertos, estepes e montanhas. Concorriam para este florecimento populacional o fato de ser uma área que apresentava vales férteis de grandes rios, ao lado da localização estratégica - passagem obrigatória das rotas comerciais do local.

Estritamente falando, a Palestina é uma estreita faixa limitada ao norte pela antiga Fenícia, que corresponde hoje ao Líbano e a parte da Síria; ao sul pela Península do Sinai, região montanhosa e desértica do Egito; à leste pelo Deserto Arábico, que atualmente se estende da Síria e da Jordânia para outros países; e à oeste pelo Mar Mediterrâneo, um mar do Atlântico Oriental que banha diversos países.

Estendendo-se de norte a sul por cerca de duzentos e quarenta quilômetros e tendo aproximadamente vinte mil e seiscentos quilômetros quadrados, era atravessada pelo rio Jordão, palavra que significa “lugar onde se desce”. Sua nascente se situa nos montes Antilibano, na encosta do monte Hérmon. Daí, descendo, forma o lago Hulé, e depois, o Mar da Galiléia, também chamado de Lago Tiberíades e de Lago de Genesaré. Seguindo o seu curso, desemboca no Mar Morto. Tendo grande importância nas narrações bíblicas, atualmente, é a fronteira entre Israel, junto com a Cisjordânia, e a Jordânia.

Saliente-se que, no decorrer da história, como sói acontecer, os campos nos quais o Cristo nasceu tiveram suas fronteiras modificadas reiteradas vezes. Atualmente, por exemplo, certamente menor do que naquela época do Rabi, a Palestina está dividida em três porções. Uma foi transformada no Estado de Israel. As outras duas são a Faixa de Gaza e a Cisjordânia. E, infelizmente, ainda continua sendo palco de inúmeras guerras, apesar de ser chamada de santa.

- Na época de Jesus –

No tempo de Jesus, graças às conquisas realizadas pela dinastia asmoniana e por Herodes, Canaã tinha, praticamente, seus primitivos limites. Porém, estava dividida em várias regiões. Pode-se dizer que as principais eram a Samaria, a Judéia e a Galiléia, mas também outras menores existiam, como a Peréia – ou Paréia -, a Iduméia, a Ituréia, a Batanéia, a Traconites, a Abilene e a Gaulanites.

Ao norte da Palestina, e com uma população bastante miscigenada - tendo fenícios, sírios, árabes e gregos -, a Galiléia foi o palco da maior parte do tempo da vivência e das pregações do Mestre. Situada quase duzentos metros abaixo do mediterrânio e com um povo que em sua maioria não sabia ler ou escrever, era uma região agropastoril e de pescadores, graças às margens do rio Jordão, ao Mar Mediterrâneio e ao Lago Tiberíades. Este último era altamente venerado pelos judeus, já que ao seu redor a vegetação e a fertilidade eram abundantes. Ao longo do tempo, passou a ser a fonte de subsistência principal da região. Alguns chegaram a afirmar que, naquele tempo, havia cinco mil barcos pescando a uma só vez. Por isto mesmo, viu florescer, em seu derredor, inúmeras cidades, inclusive de importância nos Evangelhos, como Betsaida, à nordeste do Lago de Genesaré, e Cafarnaum, Magdala e Tiberíades, todas à oeste do mar.

Em Cafarnaum, cidade na qual Mateus parece ter vivido, existia uma sinagoga - fato que deveria indicar uma certa importância desta cidade -, na qual Jesus cura um paralítico e faz os primórdios de sua vida pública. No extremo norte, havia a Cesaréia de Filipe, uma reconstrução Herodeana da antiga Pânias em homenagem à Roma, o que causou grande desconforto entre os israelitas.

Mais abaixo, à sudoeste do Mar da Galiléia, ficava Nazaré, a cidade na qual Jesus passou mais tempo, em especial de sua juventude. Esta era uma cidade pequena, com um terreno largamente aberto e um frio rigoroso no inverno, muito embora tivesse um clima ameno em outras épocas. A oeste dela, estava a cidade de Caná, também um dos primeiros cenários de suas pregações. Também próximo, estava o monte Tabor, no qual ele se transfigura, na que, segundo Divaldo Franco, foi a primeira sessão mediúnica da história, com o aparecimento, também, de Elias e de Moisés.

A verdade é que em outras regiões, como em Jerusalém, as pessoas com desdém perguntavam – “Vem, porventura, o Cristo da Galiléia?” -, ou ainda – “Poderá sair coisa boa de Nazaré?”. Entretanto, apesar de um povo simples, segundo muitos, até hoje a hospitalidade e generosidade são marcas das pessoas do local.

Já ao Sul da Terra Prometida, em área montanhosa, a Judéia era o centro do poderio econômico. Em seus campos predominava a pecuária, com criação de camelos, de vacas e de ovelhas, e o cultivo da oliveira. Além disso, o artesanato e o comércio ganhavam destaque, inclusive de artigos de luxo, estes sobretudo na capital.

Possuia, igualmente, as principais cidades da cultura judia, bem como o poderio econômico. Jericó, mais ao norte, era uma das cidades mais antigas e de suas árvores se extraia bálsamo para perfumes. Betânia, logo abaixo, próxima do Monte das Oliveiras e de Jerusalém – João escreveu que ficava a uns 15 estádios desta -, foi visitada diversas vezes por Jesus. Isto porque lá estavam, corriqueiramente, Lázaro e suas irmãs, Marta e Maria. Era uma das poucas casas na qual o Mestre se hospedava.

A capital estava situada em Jerusalém, à oeste de Betânia. Lá estava o centro global da cultura hebraica. Situada a setessentos e sessenta metros acima do nível do mar Mediterrâneo, recebia cerca de cento e oitenta mil peregrinos em épocas de festividades. Naquela ocasião, Herodes já havia reerguido e ampliado o famoso templo, que, então, passou a ser conhecido com o seu nome, e era, sem dúvida, o centro de Israel. Aí, campeavam a soberba e o preconceito. Ao leste deste centro e depois do vale de Josafá, ou vale do rio Cédron, ficava o Monte das Oliveiras, uma cadeia de colinas com três picos, na qual o Cristo esteve algumas vezes pregando. Foi lá que ele previu a negação de Pedro. No sopé desta colina, estava um jardim chamado Getsêmani, no qual o Mestre orou antes da crucificação. Também, perto desta cidade, estava o Gólgota, planície na qual Jesus foi crucificado e, por ser um termo em aramaico, significa calvário, ou lugar da caveira, segundo alguns evangelistas.

Mais ao sul, estava Belém, o local das tradicões do antigo rei Davi. A Judéia também era atravessada pelo rio Jordão e pelo mar Morto, este ao leste de seus principais povoados e descendo até chegar a Iduméia.

Entre, porém, a Galiléia e a Judéia, apertada como uma ilhota, estava a Samaria que, naquele tempo, não desfrutava mais as glórias do passado. Ao contrário, sofria ainda a discriminação por parte dos outros judeus, sendo, pois, mais pobre. Isto ainda era reflexo da dominação feita pelos assírios, ao talante de Sargão II, na qual, dentre outras coisas, tivera suas mulheres violentadas pelos conquistadores. A partir de então, seus filhos passaram a ser vistos como mestiços e, portanto, impuros. Porque ficassem proibidos de entrar em contato com outros hebreus, mesmo de adorar Deus no templo de Jerusalém, os samaritanos, sob o comando de um sacerdote de Sião, construíram um santuário em cima do monte Garizim para rivalizar com o da Judéia. Este ficava no centro da Samaria.

Entre este monte e o Ebal, ou Hebal, contudo, estava, numa altitude de quase 600m, a cidade de Sicar, ou Siquém, que significava dorso, famosa pelo poço de Jacó, que talvez exista até hoje com o nome de Bir Iakub. Eles tinham costume de colocar em locais públicos nomes de seus antepassados. Aí, Jesus esteve por alguns dias, num diálogo notável com uma mulher. A esta altura, no entanto, a própria cidade da Samaria, que havia sido destruída na época dos macabeus, tinha sido reconstruída por Herodes, agora com o nome de Sebaste, ou Augusta em grego, igualmente em homenagem ao imperador romano. Esta ficava a noroeste de Sicar.

A região da Samaria, como estava entre as duas principais regiões da Palestina, era local de passagem dos viajantes. Na verdade, a estrada de Jerusalém, que ligava a Judéia à Galiléia, passava a mais ou menos meia hora de Siquém, no vale entre os dois montes supracitados. Era comum, entretanto, os judeus percorrerem um caminho mais longo, através de um grande desvio ao leste, passando pela Peréia e evitando, assim, o contato com os samaritanos. Segundo João, porém, o Mestre pela estrada passou tranquilamente.

Na realidade, esta terra foi fonte de inspiração para uma das mais belas parábolas do Evangelho, a do samaritano, quando é proclamada a excelência da caridade. Outrossim, desde cedo esta região recebeu a Boa Nova. Mesmo os apóstolos a visitaram depois da crucificação.

O meigo Rabi ainda passou por diversas regiões da Palestina, como a Peréia, depois da sua quarta estada em Jerusalém, de acordo com João, e a Decápole, em Gerasa, onde fez curas consagradas pelos apóstolos.

Como seja, porém, nestas paisagens, aqueles devem ter sido dias inesquecíveis.

Leonardo Machado (04 de janeiro de 2008)

BIBLIOGRAFIA

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10. FRANCO, Divaldo Pereira. Primícias do Reino. Pelo espírito Amélia Rodrigues. 11.ed. Salvador, BA : LEAL Editora, 2008, p.21-29, 109-110.

11. FRANCO, Divaldo Pereira. Há flores no caminho. Pelo espírito Amélia Rodrigues. 6.ed. Salvador, BA : LEAL Editora, 2002, p.17-22.

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16. Wikipédia, a enciclopédia livre. In: http://pt.wikipedia.org/wiki/Mar_Mediterr%C3%A2neo ; http://pt.wikipedia.org/wiki/Palestina ; http://pt.wikipedia.org/wiki/Deserto_ar%C3%A1bico ; http://pt.wikipedia.org/wiki/Pen%C3%ADnsula_do_Sinai ; http://pt.wikipedia.org/wiki/Rio_Jord%C3%A3o ; http://pt.wikipedia.org/wiki/Bet%C3%A2nia_(Israel) ; http://pt.wikipedia.org/wiki/Monte_das_Oliveiras ; http://pt.wikipedia.org/wiki/Gets%C3%AAmani ;